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Gustavo Almeida

OPINIÃO | Algo está errado quando um governo precisa lutar para provar que suas realizações existem

Gestão de Rafael tem, inegavelmente, pontos positivos e avanços em algumas áreas. Mas obras que ele mesmo vendeu como revolucionárias permanecem sob a sombra da ilusão.

Rafael Fonteles (Foto: Laura Cardoso/DitoIsto)

Quando um gestor inaugura uma rodoviária e no dia seguinte ônibus embarcam e desembarcam com passageiros nas plataformas do terminal, não é preciso esforço midiático ou guerra de narrativas para provar que aquela realização existe. Do mesmo modo, quando um gestor inaugura um hospital e logo em seguida ele passa a funcionar, não há risco de versões conflitantes sobre a existência ou não da nova unidade de saúde.

No governo de Rafael Fonteles, no Piauí, há duas situações que merecem uma análise cuidadosa, sem os rompantes típicos de mera oposição e sem a paixão política que se possa nutrir pelo petista que não veste vermelho.

Nesta semana, teve ampla repercussão a decisão da empresa Solátio de pedir o cancelamento das licenças ambientais e, ao menos por enquanto, suspender o investimento no projeto de Hidrogênio Verde no Piauí. Tal atitude foi entendida por muitos como o fim das atividades e o sepultamento do “sonho” do Hidrogênio Verde. O Governo nega que seja o fim do projeto.

Independentemente de qual versão seja a mais verdadeira, há uma questão que é fato: o governo de Rafael Fonteles não consegue provar a concretude, a solidez dos seus dois maiores projetos: esse da usina do Hidrogênio Verde e o do Porto de Luís Correia (Porto Piauí), ambos no litoral do estado. Foram as duas maiores promessas de Rafael, apresentadas como revolucionárias, que mudariam os destinos do estado. O petista chega ao 4º ano do seu mandato e, até agora, essas duas “realizações” dividem opiniões.

O porto, que chegou a ter uma inauguração pomposa em dezembro de 2023, nunca virou porto de fato. O Governo, com sua máquina de propaganda e com grande parte da mídia a seu serviço, não conseguiu convencer o piauiense de que o tal porto existe. Aliados da gestão sustentam a narrativa de que o porto existe, a oposição garante que não. Navios de carga não atracam por lá. Essa própria divergência de versões prova a incipiência do bendito complexo portuário do Piauí.

Com relação ao Hidrogênio Verde é a mesma coisa. Rafael só falava nisso quando assumiu o governo. Em quase toda entrevista, o gestor propagava que o “Hydrogen Green” colocaria o Piauí na vanguarda da renovação energética mundial. Teve até evento com o vice-presidente da República Geraldo Alckmin em Parnaíba. No dia 20 de março de 2025, o site oficial do Governo estampou a manchete ufanista: “Ministro Alckmin assina autorização para instalação do maior projeto de hidrogênio verde do mundo no Piauí”. Que orgulho!

Evento com Geraldo Alckmin em Parnaíba (Divulgação/Governo do Piauí)

Um ano depois daquele evento, o mesmo governo precisa divulgar nota e mobilizar a imprensa – sobretudo a subserviente – para tentar “provar” que o sonho do Hidrogênio Verde não morreu. Pode ser – e como piauiense nós torcemos – que daqui a alguns anos a gente veja tudo isso ser realidade, mas é difícil acreditar nesse futuro de pioneirismo mundial quando notamos que o maior esforço do governo ao longo desses quase quatro anos tem sido emplacar a narrativa da existência de algo que, aos olhos da sensatez, ainda não deixou de ser abstrato.

Quando Juscelino Kubitschek prometeu que construiria uma nova capital do Brasil numa área quase inóspita do Planalto Central, para onde ainda teria que abrir estradas para levar o próprio material de construção da nova cidade, muita gente duvidou e até chamou de loucura. Mas Kubitscheck começou a fazer, o Brasil passou a ver a construção e o que parecia “loucura” foi se erguendo diante dos olhos do País. Não havia como duvidar, não tinha como a oposição dizer que era falso, não precisou esforço midiático para provar que a construção estava existindo. Era concreta, saiu da fase abstrata.

No Piauí, por enquanto, Rafael Fonteles ainda não conseguiu tirar suas maiores promessas da fase abstrata. E olha que nem mencionei aqui a Hidrovia do Rio Parnaíba, também prometida pelo governador, obra complexa e orçada na casa dos bilhões. 

A gestão de Rafael tem vários pontos positivos, como a excelente qualidade das estradas, a melhoria estrutural de grande parte das escolas e avanços significativos na área da segurança pública. Porém, as obras que ele mesmo vendeu como revolucionárias seguem, ao menos até aqui, encobertas pela penumbra da ilusão.

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